sexta-feira, dezembro 01, 2006

Apreciação crítica do filme “Adorável Professor”

Apreciação crítica do filme “Adorável Professor”

Título Original: Mr. Holland’s Opus; Gênero: Drama; Duração: 140 min.; Ano de lançamento (EUA): 1995; Distribuição: Buena Vista Picture; Direção: Stephen Herek; Personagem principal: Richard Dreyfuss (Glen Holland).


Sinopse


O filme Adorável Professor conta a história de um músico profissional que por necessidades financeiras tem de lecionar para estudantes de uma escola pública dos Estados Unidos da América. O mesmo é casado com uma mulher e reside com ela em um apartamento. O professor não se sente bem dando aula afinal de contas vai lecionar para que possa ter tempo para compor, que é o seu grande sonho, e, além disso, juntar dinheiro para construir uma poupança que possa ser base de sua sobrevivência no futuro enquanto compõe. Os planos começam a dar errado quando o personagem central entra em conflito com os alunos e quando a sua mulher revela ao mesmo que está grávida. Vendo-se em uma situação difício o mesmo percebe que vai ter que trabalhar mais do que havia planejado que era aproximada mente dois anos. No decorrer do processo de adequação ao trabalho ele percebe que o tempo, fato motivador do mesmo ter aceitado este emprego, que vai ter que dispor aos seus alunos vai dificultar muito a sua produção musical além do fato de ter que cuidar do seu filho. Mesmo assim o protagonista começa e se interessar pelas aulas que dá aos alunos e ao mesmo em que investe afetivamente na sua relação com o filho que acabara de nascer. Tudo vai bem até que o mesmo descobre que seu filho só tem 10% da audição. Sua relação com o mesmo fica deteriorada e ele se volta completamente para o Magistério. Dando aulas de maneira intensa e trabalhando de forma excelente com os alunos. O filme retrata também o início da educação do seu filho, deficiente auditivo e retrata também as implicações da guerra do Vietnã e de outros acontecimentos históricos na vida do casal, do seu filho e da escola em que estudavam. Ocorre também a saída de diretora que tinha contratado o personagem e a sua substituição pelo diretor adjunto. Durante a vida do personagem central o mesmo reata relações com o seu filho que tinham se fragmentado em decorrência do seu engajamento na vida escolar da escola em que trabalha. Aliás, a escola muda substancial mente no decorrer do filme com a influência de causas históricas e por influência do professores inclusive a do personagem central. A disciplina de música que era relegada a segundo plano pelos discentes da escola passou a ser retratada com bons olhos pelos mesmos devido ás aulas do personagem central. Além disso, seria interessante lembrar que o personagem central se envolve com uma de suas alunas no decorrer do filme, mas não chega a trair a esposa ou a deixá-la. O filme termina com o personagem central sendo despedido devido a contenção de gastos iniciada pelo conselho de educação da região em que vivia o personagem central, mas o mesmo não sai da escola sem antes receber uma homenagem.


Apreciação crítica


O filme Adorável Professor pode ser visto de diversos ângulos e, além disso, pode ser relacionado facilmente com a “vida real”. Na verdade a “vida real” não é nada mais do que uma expressão que nos leva a pensar, a falar, a sentir a agir frente a um mundo com o qual não entramos em “contato direto”, mas que faz parte das vidas de parte considerável das pessoas nosso mundo, ás vezes mesmo daquelas mais insensíveis: o mundo da Arte; da expressão de sentimentos de uma forma rebuscada, sempre comprometida com um padrão de qualidade que as culturas estabelecem com aceitável. E esse longa metragem não deixa de ser uma forma rebuscada de expressão (produção na verdade, pois a Arte não expressa, ela não tem vida própria, no entanto ele provoca...Provoca, choro, riso, dor, lembranças, saudades...) de sentimentos.

Abordarei aqui três ângulos que estão intimamente ligados no filme e que podem ser analisados de uma maneira tão sistemática e metódica quanto se propõe alguns tipos de Artes. Procurarei fazer uma apreciação crítica desses diversos ângulos correlacionando-os com conceitos científicos e á luz de uma teoria científica, o que não significa que uma apreciação crítica de um fenômeno a partir dessa ótica seja estática, simplista, ou desumana; na verdade uma apreciação científica de um objeto traz em si tanta criatividade, ousadia e bom-senso quanto o que existem na Arte. Aliás, a própria Arte é objeto de estudo da Ciência. Assim “talvez não seja a Ciência que está errada, mas sua aplicação” (SKINNER, 2003).

Analisar um objeto á luz da Ciência é pertinente e sabidamente indicado, pois “A Ciência não se preocupa somente com o obter dos fatos depois do que se poderia agir, de maneira não-científica, com mais sabedoria. A Ciência fornece a sua própria sabedoria. Conduz a uma nova concepção do assunto, um novo modo de pensar sobre aquela parte do mundo a que se dedicou. Se quisermos desfrutar tais vantagens da Ciência no campo dos assuntos humanos, devemos estar preparados para adotar um modelo de comportamento de trabalho para o qual a Ciência conduz inevitavelmente”(SKINNER, 2003)

Assim “A Ciência é mais que a mera descrição dos acontecimentos à medida que ocorrem. É uma tentativa de descobrir ordem, de mostrar que certos acontecimentos estão ordenadamente relacionados com os outros. Nenhuma tecnologia prática pode basear-se na Ciência até que estas relações tenham sido descobertas. Mas a ordem não é somente um produto final possível; é uma concepção de trabalho que deve ser adotada desde o principio. Não se podem aplicar os métodos da Ciência em assuntos que se presume ditado pelo capricho. A Ciência não só descreve, ela prevê.Trata não só do passado, mas também do futuro. Nem é previsão sua última palavra: desde que as condições relevantes possam ser alteradas, ou de algum modo controladas, o futuro pode ser manipulado.Se vamos usar os métodos da Ciência no campo dos assuntos humanos, devemos pressupor que o comportamento é ordenado e determinado. Devemos esperar descobrir que o que o homem faz é o resultado de condições que podem ser especificadas e que, uma vez determinadas, poderemos antecipar e até certo ponto determinar as ações.”(SKINNER,2003)

Os ângulos analisados nessa apreciação serão os seguintes: a)funções da escola; b) relação professor-aluno; c)saberes necessários.

A educação é o estabelecimento de comportamentos que serão vantajosos para o indivíduo e para os outros em algum tempo futuro [...] A educação dá ênfase á aquisição do comportamento em lugar de sua manutenção”. (SKINNER, 2003). A educação que se fazia na escola onde ocorreram os principais acontecimentos do filme revela bem isso. As funções da escola a partir do que foi visto são amplas e complexas. Não só prepara para o trabalho, para a técnica, mas, também, produzir sujeitos criativos, críticos que tenham a capacidade de aprender a aprender e finalmente promover o repasse e produção da Cultura afinal a escola é uma instituição que também têm esse caráter, ela é uma agência de controle como as demais que o homem cria. A escola está inserida no Sistema Educacional. ”Desse sistema fazem parte: os que ensinam, os que fazem pesquisa na área educacional, os que administram as instituições de ensino, os que estabelecem as políticas educacionais e os que mantêm a educação.”(VALE ,1997). As funções da escola estão correlacionadas aos que pensam a escola. “Ou seja, para compreender um sistema de ensino, além de suas características, é preciso conhecer quais contingências e regras influenciam o modo de agir e de pensar dos responsáveis pela manutenção do sistema ”(VALE, 1997).

Infelizmente a escola retratada pelo filme, quando o professor chegou, não obedecia a um princípio básico da boa educação: a de ter significado para a vida do educando, ou seja, estar relacionada a seu contexto cultural, ás suas demandas, aos seus desejos, á sua época. Isso se revela de maneira explícita, pois os adolescentes do filme não se interessavam por Músicos Clássicos, aliás, não se interessavam nem mesmo pelas aulas de música. “Em algumas situações basta que um sistema educacional tenha um valor de sobrevivência da cultura para que ali ele se mantenha. Nessa situação para que esse sistema tenha o seu valor cultural é preciso saber quais os problemas a serem enfrentados pela cultura, que tipo de comportamentos contribuirão para a solução de seus problemas e de que modo é possível se alcançar esses comportamentos.”(VALE, 1997)

As relações professor-aluno retratadas no filme revelam bem a desconexão entre contexto cultural e ensino formal: os alunos não se envolviam com os professores e com o aprender, existia um desencantamento, uma desmotivação visível.

Caldas e Hübener (2001) afirmam que o interesse e o prazer demonstrados pelas crianças parecem diminuir consideravelmente à medida que crescem e avançam nos anos escolares e que com o passar do tempo esta criança vai desanimando-se, desmotivando-se, desinteressando-se e a emocionante construção de novos conhecimentos parece tornar-se um pesado fardo. “A existência de desencantamento, portanto parece ser rela tanto nas teorias desenvolvidas como nos estudos práticos [...] Motivação está diretamente associada á interação organismo-ambiente e isto nos remete á necessidade de prever e planejar situações antecedentes e conseqüentes ao processo de aprender em sala de aula.”(CALDAS E HÜBENER, 2001)

Vale afirma (2001) que “Antigamente o que existia era a punição corporal, que hoje em dia foi apenas trocada pela punição não corporal (tais como tarefas extras, idas ao coordenador ou à diretoria, bilhetes para os pais, pontos negativos nas notas, etc.). A cadeia associativa que pode ser formada entre “estudo” e os sentimentos gerados pela punição é capaz de fazer com que o aluno despreze ou tenha ódio do comportamento de estudar, e de tudo aquilo que a ele estiver relacionado. Se o aluno não aprende é muito provavelmente porque o modo como ele aprende e o que faz com que ele aprenda não foi compreendido por parte ou do professor, ou do colégio ou do sistema educacional”(VALE, 1997).

O professor no filme percebeu que não podia mudar tudo, mas podia mudar alguma coisa. Começou a lidar com reforços “naturais”, ou seja, aqueles que faziam parte da vida dos seus alunos. A música de seu tempo, seus interesses em tocar determinados instrumentos e não outros, por exemplo.

Quando o comportamento de aprender está sob controle das suas conseqüências naturais, então, acontece desse comportamento ficar mais “fácil” de ser emitido pelo aluno, que não mais precisa ser coagido a aprender”. (VALE, 1997)

E isso alterou conseqüentemente a relação que o professor tinha com a escola, ele passou a se interessar pelo diversos aspectos da mesma e até passou a se interessar menos com a composição de suas músicas, ocupando seu tempo pro exemplo com aulas de reforço para os que tinham dificuldades. A mais representativa parte do sistema educacional é o professor. Para compreendê-lo é preciso compreender as contingências que reforçam o seu comportamento de ensinar. A remuneração e o prestígio podem até atrair o professor para a sala de aula, mas o verdadeiro comportamento de ensinar emitido dentro da sala de aula é reforçado por outros motivos [...] Ou seja, a principal conseqüência que possui efeito reforçador para o comportamento de ensinar de um verdadeiro professor é a aprendizagem do aluno. (VALE, 1997)

Essa mudança provocou uma pequena “revolução” nas aulas de músicas que passaram a ser mais valorizadas pelos estudantes provocando encantamento nos mesmos.

O último tópico a ser tratado diz respeito aos saberes necessários que uma escola inserida em um sistema educacional deve multiplicar. Saberes pelos quais o professor deve primar construir junto com os seus alunos.

Skinner (2003) inicia o capítulo XXVI de seu livro afirmando que em uma escola americana, se você pedir sal em bom francês, recebe nota10. Na França, dão-lhe o sal. A diferença dessas conseqüências revela dois fatores: primeiro, a educação é o de estabelecimento de comportamentos que serão vantajosos para o indivíduo e para os outros em algum tempo futuro; segundo uma boa educação procura fazer sempre isso. Assim educar numa perspectiva analítico-comportamental é dispor ao sujeito instrumentos que o permitam mudar o meio, mudar de meio ou mudar-se perante o meio, tudo isso ao mesmo tempo, ou seja, uma perspectiva holística, abrangente, que considere o organismo e o meio a mesma coisa. Como afirma Vale (1997) um estudante que sabe o que o faz agir da maneira que age é capaz de selecionar quais tipos de controle ele aceita e quais ele não aceita, e isso é o que é liberdade para um behaviorista.

O “algo” que um indivíduo aprende deve fazer com que ele seja capaz de melhor compreender, modificar e agir no seu ambiente sendo assim reforçado por esse ambiente.

Por que o sujeito aprende? Algumas visões atestam que ele aprende pelo fato do conhecimento aprendido ter sentido para aquela pessoa... “Uma pessoa até aprende o que tem um sentido para ela, mas a pergunta que deve ser feita é “por que esse conhecimento tem sentido para ela?”, se essa pergunta for feita continuamente, com certeza, em algum momento vai se chegar a uma explicação que se origina no ambiente”(VALE,1997).

A educação deve ser uma educação inserida em um contexto, de uma época, de uma realidade... Não existe educação bem feita se ela não respeita isso!

Caldas e Hübener (2001) citam Skinner (1989) no final do seu artigo que afirma que as escolas no futuro “Serão um lugar muito diferente de qualquer que tenhamos visto até o momento. Elas serão agradáveis. Da mesma forma que as lojas bem administradas, restaurantes, teatros, elas serão bonita, soarão bem, cheirarão bem. Os estudantes virão para a escola não por que serão punidos por ficarem longe dela, mas por que serão atraídos pela escola. Professores terão mais tempo para conversar com seus estudantes. A competição entre os alunos terminará e o estudante excelente não precisará mais fingir que não sabe de vez em quando para poder continuar a ser aceito em seu grupo. Professores do futuro funcionarão mais como conselheiros, provavelmente ficando em contato com os seus alunos por mais de um ano e conhecendo-o melhor.”


CALDAS, Roseli Fernandes Lins & HÜBNER, Maria Marta Costa. O desencantamento com o aprender na escola: o que dizem professores e alunos. Psicologia: teoria e prática, 3(2): 71-82, 2001.


CEMP. Centro de Estudos em Psicologia. Apresenta textos sobre Psicologia como o de Antonio Maia Olsen do Vale: Aprendizagem e Ensino no Pensamento Skinneriano,1997. Disponível em: <http://www.cemp.com.br/>. Acesso em 14 jun.2006.


SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. 11ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003, 489 pg.


Anderson de Moura Lima












6 comentários:

junior disse...

bom cara show de bola essa critica...vc poderia ajudar nós leitores modificando a letra mais escura. espero ter ajudado abraço!

Anderson de Moura Lima disse...

Obrigado Anônimo pelo comentário. Nunca fui muito bom de português, mas estou melhorando...

Abraços!

Catia Lucia disse...

Gostei do seu blog... adorei esse filme, por isso ele acabou se tornando o nº 1 na minha lista de filmes preferidos. Tenho que fazer um resumo sobre esse filme para entregar na faculdade, mas não copiei o seu rsrsrs no seu resumo só não concordei com uma coisa... você disse que o professor se envolveu com uma aluna mas não chegou a trair a esposa... assistindo eu entendi que ele amava tanto a música que por um instante os olhos dele brilharam quando essa aluna propôs que ele fosse com ela para Nova York compor, ou seja, acredito que ele "balançou" não pela moça + porque ela disse compor música... vou entregar o meu para a profª dar uma olhada hoje, depois vou postar no meu blog... bjs me visite também www.corpodiscente.blogspot.com

Anderson de Moura Lima disse...

Obrigado Catia pelos elogios!

Anônimo disse...

Boas muito bem estruturado assunto , adorei bastante, acho que poderiamos tornar-nos blog palls :) lol!
Tirando as piadas chamo-me Humberto, e como tu escrevo webpages embora o tema principal do meu espaço é bastante diferente deste....
Eu faço websites de poker que falam de dinheiro grátis para jogar poker sem teres de por o teu cash......
Amei muito aquilo vi escrito!

Anônimo disse...

Anderson,
Rodando os cansis ontem, encontrei este filme. Assisti novamente, acho que pela quarta ou quinta vez, pois o acho irresistível e emocionante até às lágrimas.
Muito boa sua crítica, obrigado.
ROBERTO